Qual o real motivo de trabalharmos?

Qual o real motivo de trabalharmos?

Por Mauro Segura. 15 de outubro de 2015.

O artigo “É possível ser feliz, sem ser feliz no trabalho?”, do Tracanella, faz uma reflexão perturbadora. Gastamos um terço da vida trabalhando, um terço dormindo e um terço vivendo. Notem que eu separo “viver” de “trabalhar”. É uma equação simples, de conclusões óbvias, mas ela carrega alguns segredos.

Assumindo que fisiologicamente é difícil diminuirmos o tempo de sono, mesmo considerando que eu tenho amigos que dormem magicamente apenas quatro horas por dia, a estratégia para a nossa felicidade passa por fazer o “tempo vivendo” invadir o “tempo trabalhando”. Ou, analisando de outra forma, precisamos diminuir o número de horas diárias de trabalho para sobrar mais tempo para viver. Isso parece impossível assumindo que na vida real o trabalho nos consome cada vez mais tempo e invade a nossa vida cotidiana.

Se não dá para diminuirmos as horas de trabalho por dia, então o caminho é transformarmos o nosso trabalho em algo que realmente faça sentido para nossa realização pessoal e profissional. Não podemos simplesmente encarar o “tempo trabalhando” como trabalho. É exatamente neste ponto que entra a argumentação do Tracanella: não dá para ser feliz sem ser feliz no trabalho. Invertendo as coisas, não dá para trabalhar em algo que não te faça feliz.

Barry Schwartz, psicólogo e palestrante do TED, foi ainda mais fundo nessa questão e lançou a pergunta: por que trabalhamos? A resposta parece óbvia: porque precisamos de dinheiro para viver e pagar as nossas contas. Essa é a resposta evidente e racional, mas no fundo não é a resposta que esperamos. Existe algo mais profundo e filosófico por trás da necessidade de trabalharmos.

Ele faz mais perguntas: por que o trabalho representa um sacrifício sem fim para a maioria esmagadora das pessoas no planeta? Por que o trabalho não pode ser algo motivador que nos faça levantar felizes da cama todos os dias? Por que a sociedade aceita que a maioria das pessoas faça trabalhos monótonos, sem sentido e sufocantes? Por que é que ao longo do último século nós não conseguimos fazer com que as satisfações não materiais no trabalho se tornassem mais essenciais?

Não vou descrever aqui as reflexões de Mr. Schwartz. Veja você mesmo em seu excelente vídeo no TED de apenas 8 minutos (com legendas em português) ou acesse o transcript (em português). Ele faz as perguntas, dá as respostas e elas não são nada agradáveis. O fato evidente é que a própria sociedade criou a armadilha do trabalho em que nos encontramos hoje. Parece que estamos presos a um modelo que não conseguimos nos libertar. Se não existe uma perspectiva de mudança vinda da sociedade, então a mudança na forma como encaramos o trabalho tem que vir de nós mesmos, de dentro da gente. A responsabilidade torna-se individual, introspectiva, muito particular e sem fórmula mágica.

Parte da resposta vem das perguntas e da reflexão do Tracanella. Quanto o nosso trabalho nos ajuda a sermos mais felizes? E quanto ajudamos nosso trabalho a também ser? Só conseguiremos ser felizes no trabalho se, de alguma forma, ele nos provê realizações.

A sua relação com o trabalho tem múltiplas dimensões: a carreira que você escolheu, o seu emprego, a empresa onde trabalha, os seus colegas, as suas aspirações profissionais, a sua performance e muitas outras dimensões. Conheço muitos amigos que reclamam do trabalho, quase sempre delegando a questão a fatores externos, mas o principal responsável pela sua felicidade no trabalho é você mesmo, é consequência de suas escolhas e depende da sua capacidade de ver a parte cheia do copo todos os dias.

Eu tenho uma visão pessoal a respeito disso. O mais importante para mim é trabalhar em um lugar ou com algo que esteja conectado a algum propósito que não me deixa indiferente. Sabe aquela sensação de estar fazendo ou construindo algo especial, que impacta alguém ou alguma coisa? É disso que estou falando, e é isso que me alimenta diariamente no trabalho.

Esqueça aquela história de que o bom é trabalhar em algo que exija pouco de você, que deixe você confortável, sem pressão, sem incômodos e sem desafios. A ciência mostra exatamente o contrário. A chave para a satisfação pessoal é fazer coisas arriscadas, desconfortáveis e até mesmo desgastantes; mas desde que elas empurrem você para frente, que permitam você se desenvolver, crescer e aprender coisas novas.

O bom trabalho não é sinônimo de conforto. É até pior, ele gera ansiedade e frio na barriga, uma sensação constante de estar em uma corrida de obstáculos. Portanto é importante conhecer suas potencialidades, o que realmente motiva você, o que você tem interesse e encontrar meios de conectar tudo isso no trabalho. Tudo isso exige autoconhecimento e capacidade de reconhecer suas virtudes e fraquezas. Saber desenvolver bons relacionamentos também é fundamental. Enfim, essas são formas de ajudar que o seu trabalho seja mais feliz e revigorante. Por mais que pense diferente, o principal responsável pela felicidade no trabalho é você mesmo.

Mauro Segura é líder de marketing e comunicação na IBM Brasil

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